ARRAIAS, PAQUETÕES E BOLACHINHAS

O mês em curso me faz lembrar os julhos da minha infância. Quando o céu de Fortaleza ficava povoado de vistosas arraias fazendo as suas belas evoluções aéreas. Um fenômeno explicado pelas férias escolares que incidiam, ontem como hoje, num mês de muitos ventos.
As arraias (ou "raias" como pronunciavam os moleques), as quais, em outras partes do Brasil, seriam chamadas de pipas, pandorgas ou papagaios.
Para a confecção de uma delas, não se necessitava de muita coisa. Palitos secos de coqueiro, linha, papel-seda e um pouco de grude. Com os palitos secos, em número de três, amarrados nos cruzamentos por pedaços de linha (e com um destes pedaços utilizado para delimitar o perímetro) fazia-se o esqueleto da arraia. A seguir, nesta armação se colavam os retalhos do papel-seda por meio de um grude preparado na cozinha de casa.
Os complementos do brinquedo eram o cabresto e o rabo da arraia. Para o cabresto, que servia para prender a arraia, bastava um pequeno pedaço de linha. E, para o rabo da arraia, além de uma maior porção de linha, à qual se atavam pequenas tiras de pano (molambo era o ideal), a intervalos regulares, ficando uma tira maior, a ponteira, para ser colocada no final da linha. O rabo (ou rabiola) era então preso na extremidade da arraia para lhe conferir estabilidade. Sem ele, ao ser posta no ar, a arraia ficaria a girar loucamente e sem ganhar altura.
Havia uma versão gigante da arraia, o paquetão, cujo esqueleto era feito de taboca. O qual era colocado no ar apenas por quem tinha a robustez suficiente para controlá-lo. E existiam também as bolachinhas, umas imitações baratas das arraias, que serviam de divertimento para as crianças menores. Feitas de algum papel grosso, cortado na forma redonda, e a seguir perfurado por palitos de coqueiro que funcionavam como armação, eram feias e não ganhavam grande altura.
Empinava-se a arraia com a ajuda de um companheiro que a elevava bem acima da cabeça. Até que, a um sopro mais forte do vento, a arraia era largada enquanto o outro a puxava. O outro era o dono da arraia que, muitas vezes, tinha de correr contra o vento para que ela subisse. Não havendo o auxílio de um companheiro para empiná-la, a alternativa era o "soltador" de arraia se posicionar num local elevado como um muro ou o terraço de casa.
E a arraia subia em movimentos coleantes sob o incentivo de repetidos puxões aplicados em sua linha. Com esta, a cada instante, sendo liberada de um carretel que rolava entre os dedos do "soltador". Até que a arraia se encontrasse na altura desejada (ou a linha chegasse ao fim). Neste ponto, começava o bonito espetáculo da arraia a movimentar-se no espaço em resposta aos "lanceios" feitos no chão.
Uns contentavam-se com esse aspecto "pacífico" da brincadeira. Outros, porém, preferiam praticar o "corte" de arraias. Uma peleja entre arraias em que, ao cruzamento das linhas, uma delas (às vezes, ambas) sofria o "corte". E, ficando sem o controle da linha que a prendia, passava a ser arrastada pelo vento até terminar enganchada num fio elétrico, árvore ou telhado. Sendo, nessa "agonia", acompanhada pelos moleques em louca correria como se fora um troféu.
A muitos frustrava a arraia "cortada" ser também "aparada". Quando essa arraia "derrotada" não caía em domínio público, por haver sido em pleno ar capturada e recolhida pela arraia "vencedora", graças à habilidade do dono desta.
Não seria possível o "corte" de arraias sem a participação do cerol. Preparado com vidro moído e cola derretida, assim que secava na linha em que era aplicado, o cerol a transformava num instrumento verdadeiramente cortante. Capaz de causar acidentes nos brincantes e em terceiros, aliás, como acontece até hoje. E, o que é pior, com alguns destes acidentes a se mostrarem terrivelmente letais.

Texto originalmente postado no Blog do PG em 21 de julho de 2008.

SÉCULO DE HISTÓRIA

O Diário do Nordeste, no Caderno Regional de hoje (14/07/08), traz um artigo sobre a celebração dos 100 ANOS DA CHEGADA DA FAMÍLIA GURGEL A ACOPIARA, uma cidade do sertão central cearense.
Para ler o artigo clique aqui.

O CONTADOR LUIZ CARLOS DA SILVA

Luiz Carlos da Silva, além de advogado e professor, ainda exerceu a profissão de contador, embora essa fosse uma ocupação claramente complementar às duas primeiras citadas.
Quando fazia seus estudos secundários no Colégio Cearense do Sagrado Coração, e antes de ingressar no ensino superior, por três anos ele freqüentou, em Fortaleza, o Curso de Perito-Contador na Escola de Comércio Pe. Champagnat, também integrante do sistema marista de ensino, saindo diplomado em 07 de dezembro de 1940, e com registro no MEC-DEC, em 29 de outubro de 1942.
O curso em referência, através do Decreto-Lei 9.295, de 27 de maio de 1946, publicado no D.O.U., de 28 de maio de 1946, ganhou equivalência ao de nível superior em Ciências Contábeis; esse ato legal, assinado pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra, que regulamentou a profissão de Contador, também conhecida anteriormente como guarda-livros, veio amparar os formados ou diplomados em cursos técnicos da área de Contabilidade.
O conhecimento auferido no Curso de Contador foi de grande valia para a sua atividade advocatícia, face às interações entre o Direito e a Contabilidade, mormente nos campos do Direito Comercial e do Direito Trabalhista. Também lhe foi muito útil para o exercício do magistério, na própria Escola de Comércio Pe. Champagnat, de 1941 a 1942, largando, por sinal, quando de sua aprovação para estudar na Faculdade de Direito, e no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), em que ingressou para lecionar Contabilidade e matérias correlatas das Ciências Contábeis, em cursos técnicos ou profissionalizantes dessa instituição de ensino comercial.
Foi, todavia, somente em 13 de agosto de 1976, que ele obteve do Conselho Regional de Contabilidade do Ceará a sua Carteira de Identidade de Contabilista, na categoria Contador, sob o Nº 4.727; isso se deveu a uma imposição de trabalho que passou a executar, em parceria com um familiar, demandando o mesmo a responsabilidade profissional de um Contador.
A contabilidade foi usada como ferramenta de seu trabalho nas causas jurídicas por ele abraçadas, isso enquanto a saúde lhe permitiu atuar, tornando-se visível o excepcional esforço para permanecer ativo, a despeito da progressão da enfermidade que abalava sua capacidade física.
Depois de quase dois anos de padecimento, expirou em 20 de novembro de 2000, aos 81 anos de idade, legando aos seus descendentes um mix de perdas, tristezas, reflexões e certezas; entre as últimas, sobressaem a dignidade no sofrimento, os exemplos de solidariedade, a renúncia de si próprio e, sobretudo, a fé em Deus.
Saliente-se, por fim, a grandeza que ele exibiu ao longo de sua extensa mortificação, enfrentada sem lamentações ou rebeldias, e sim, com tranqüilidade e resignação, diante dos desígnios divinos. Com tal postura frente à enfermidade, o professor Luiz Carlos transmitiu aos herdeiros, biológicos ou fraternos, esse seu ensinamento derradeiro.

Link para este artigo no Jornal do Leitor.

Prof. Marcelo Gurgel Carlos da Silva