A FORMATURA DA LARISSA

Larissa Gurgel Adeodato, filha mais nova da Márcia Gurgel Carlos Adeodato e do Fernando Adeodato Junior, é a primeira neta do casal Luiz Carlos da Silva - Elda Gurgel e Silva (ele já falecido) a se formar em medicina veterinária. O predomínio é de advogados, engenheiros e médicos entre os filhos e netos da família. Larissa já colou grau pela UECE a 29 de maio, no Ginásio Paulo Sarasate, mas a festa será no dia 26 deste mês.
Quem tiver seus au-aus e miaus, habilite-se porque há uma nova e charmosa doutora na praça. Ah... e ela agora está curtindo a Bia, a poodle que o namorado David deu a ela.

Nota escrita por Márcia Gurgel

"Ser veterinário não é só cuidar dos animais. É sobretudo amá-los, não ficando somente nos padrões éticos de uma ciência médica. Ser veterinário é acreditar na imortalidade da natureza e querer preservá-la sempre mais bela. É ouvir miados, mugidos, balidos, relinchos e latidos, e principalmente entendê-los. É gostar de terra molhada, de mato fechado, de luas e chuvas. Ser veterinário é não se importar se os animais pensam, mas sim se sofrem. É dedicar parte do seu ser à arte de salvar vidas. Ser veterinário é aproximar-se de instintos. É perder medos. É ganhar amigos de pêlos e penas, que jamais irão decepcioná-lo. Ser veterinário e não gostar de gaiolas, jaulas e correntes. É perder um tempo acompanhando rebanhos e vôos de gaivotas. É permanecer descobrindo, por intermédio dos animais, a si mesmo. Ser veterinário é ser o único capaz de entender rabos abanando, arranhões carinhosos e mordidas de afeto. É sentir cheiro de pêlo molhado, cheiro de almofada com essência de gato, cheiro de baias, de curral e de esterco. Ser veterinário é ter capacidade de compreender gratidões mudas, mas sem dúvida alguma, as únicas verdadeiras. É adivinhar olhares, é lembrar do seu tempo de criança, é querer levar para casa todos os animais sem dono. Ser veterinário é conviver lado a lado com ensinamentos profundos de amor à vida."

Mensagem de autor desconhecido
que consta do convite de formatura da turma da Larissa

LOUCO DE DAR DÓ

Por Nelson José Cunha

Acabava de entrar pelo quarto ano do curso de medicina e tinha amigos comunistas enrustidos no meu bairro. A influência esquerdista me fez emplacar uma foto do Che na parede do quarto que covardemente escondia se batia alguém na porta. Era 1968. Comprometedor numa casa cuja cabeça era militar e amigo de generais. Papai via a foto, torcia o nariz e o resto do corpo em franca desaprovação. Minha aparência, à época, justificava sua apreensão: barbicha e cabelos desgrenhados escondendo as orelhas. Aparência de louco ou revolucionário. Num desses domingos de preguiça, papai entrou no meu quarto, evitando como de hábito olhar a literatura vermelha ao pé da cama. Foi logo anunciando que havia conseguido minha nomeação para plantonista do Asilo de Parangaba(1), meu primeiro emprego. Ele sabia e apoiava meu interesse pelos assuntos ligados ao psiquismo humano. Poucos meses antes havia me presenteado com as obras completas de Freud, maravilhosa publicação em papel de seda, que passei a zelar como um amuleto.
O meu primeiro plantão no asilo foi de arrepiar os cabelos. Mesmo estando acompanhado de um colega mais experiente tive vontade de abandonar tudo e voltar para a deliciosa vida de estudante. O hospital era deprimente.
Grades e química numa combinação perversa encarceravam os impacientes mentais. Vivi por ali o resto daquele ano, cada vez mais dividido entre a psiquiatria e a oftalmologia(2), entre olhar pra dentro da alma e olhar pra o mundo lá fora. Aquilo tudo estava me fazendo mal. Os pesadelos passaram a me fazer companhia e no almoço era o apetite que se despedia. Comecei a sentir estranhas sensações. Estando a conciliar o sono, ouvia sons de carrilhão(3). Soavam como milhares de sinos solidários.
Acordava daquele quase sono, coração a galopar e ficava esperando um novo gran finale da orquestra invisível. Mas a audição era única e não se repetia numa mesma madrugada. Dia seguinte, punha-me a indagar se alguém de casa ouvira alguma coisa. Diante da negativa espantada de todos, comecei a duvidar da minha sanidade mental. Será que essa vida de aprendiz de psiquiatra estava a me fritar os miolos? Seria o anúncio de que algo grave estava para me acontecer? Passava então a buscar no meu comportamento elementos que indicassem alguma desordem mental.
Mas essa atitude em si já indicava um pensamento lógico, concatenado e distante de um afetado. Acalmava-me pelo menos até que a noite chegasse, quando novamente ao iniciar o sono, o maldito carrilhão comparecia real e debochado. Seria uma outra forma de loucura? Estaria construindo para mim um mundo particular com a clássica lógica esquizofrênica? Enredado nestas dúvidas comecei a perder o sono e apegar-me ao Freud da cabeceira. Numa dessas noites, já insone, ouvi o carrilhão novamente, mas dessa vez estava acordado. O som era verdadeiro e estava dentro do meu quarto, vinha de cima do armário. Levantei-me como um felino, acendi a luz e marchei contra o armário repetindo o gesto de Dom Quixote ao se lançar contra um moinho de vento para resgatar sua razão. Ali estava o meu velho violão, esquecido e empoeirado, presente de meu padrinho e a espera do Professor Cláudio(4) que nunca comparecia. Tremia quando retirei o violão para examiná-lo à lente. De repente, por entre as cordas, com o som de carrilhão, saiu assustado um maestro e meu carrasco. Uma enorme ratazana(5) que escolheu o violão calado para trazer à vida seus cinco ratinhos. Por pouco não me deixou louco de dar dó.
Dó maior! Dor menor.
Rodapost por Paulo Gurgel
(1) Nelson, no quarto ano de medicina eu também flertei com a psiquiatria no Asilo de Parangaba; no quinto ano, foi namoro com ela no Hospital Mira y Lopez.
(2) No internato, simpatizei (simpatia é quase amor) a neurologia; a seguir, estando já formado, desposei a pneumologia com a qual vivo até hoje. Em 1973 (mas foi só nesse ano), ainda dividi os meus afetos com a psiquiatria na Casa de Saúde Santa Mônica, em Petrópolis. Sacumé, quem foi casa sempre é tapera...
(3) Sem que pudesse comparar com o "Sons de carrilhões" do João Pernambuco, não é?
(4) Amigo Nelson, vou lhe pedir um favor / que só depende da sua boa vontade / é necessário anistiar o professor / que está vivendo etc. e tal.
(5) O tempo é mesmo um gelol para o trauma. Pois é agora uma ratazana (até simpática) que ilustra esse seu artigo.

Publicado também no blog EntreMentes

COMIGO SIM, VIOLÃO

Quando ingressei na Faculdade de Medicina (1966) e, por conta dessa situação, ficar o meu tempo disponível para as atividades diletantes bastante escasso, foi aí que eu resolvi aprender violão. Indo, com essa decisão, ao encontro de um dos sonhos de minha velha infância: o de poder tocar um instrumento. Antes, muito antes de Caetano Veloso, numa manhã que nasceu azul, proclamar que isso era bom.
Um sonho, aliás, cuja realização já tinha sido frustrada por um violino. Surgido em minha casa, não sei por mãos de quem trazido, um anônimo violino... (com) que eu jamais afinei. O qual, quando eu lhe roçava as cordas com o arco, nunca chegou a produzir sons musicais. Apenas ruídos... como o violino do Bolinha. Se bem que esse personagem das histórias em quadrinhos tinha alguma chance de melhorar. Pois ele contava com a orientação de um professor de violino e eu nem isso.
Por isso, quando fui presenteado com um violão, eu decidi que não cometeria o mesmo erro do passado. E logo acertei, para começar a aprender o instrumento, com um amigo de nome Cláudio Costa, de quem devo ter sido, acredito, o primeiro aluno.
Morando ele, naquela época, no Parque Araxá e sendo irmão de um colega na Faculdade, o atual neurologista Carlos Maurício, o meu amigo, ainda com o pouco tempo que praticava violão, já dava mostra do grande instrumentista em que se transformaria. Eu havia pressentido isso, desde a noite em que ele, sentado na escadaria da Igreja de Nossa Senhora das Dores, em Otávio Bonfim, por um par de horas tocou de uma forma absolutamente mágica o seu violão.
É preciso agora, por ser indispensável a esta história, que eu introduza nela mais um personagem da vida real: Nelson. O Nelson Cunha que, nos últimos meses, tem sido um assíduo colaborador do EntreMentes. Sendo ele, naquela época, meu colega na Faculdade de Medicina, por vezes eu aparecia em sua casa na avenida Jovita Feitosa, na Parquelândia, para tratar de assuntos relacionados ao curso que ambos fazíamos. Numa dessas oportunidades, aproveitei para lhe mostrar o progresso que vinha obtendo no violão. E, salvo traição da memória, eu fiz isso num violão que Nelson mantinha em casa.
O colega, que não tocava violão, quis então conhecer meu professor. Quanto a isto, foi fácil atendê-lo e então, numa noite, levei Cláudio até sua casa. Para Nelson, maravilhado, constatar que eu não tinha exagerado ao falar das habilidades do violonista. E, ao fim da audição, contratá-lo para se iniciar também no aprendizado do violão. O horário, os dias da semana e o preço das aulas, tudo ficou combinado na mesma ocasião.
Alguns dias depois, na Faculdade, Nelson me fez uma cobrança:
- O Cláudio não apareceu para dar as aulas...
- Não?
- Nem uma vez.
Fiquei de retornar com Cláudio a sua casa, o que não tardou a acontecer. Claudio bisou o seu show, Nelson perguntou pelas aulas e Cláudio respondeu que seriam dadas. Em seguida, Nelson, por iniciativa própria, resolveu que aumentaria o preço a pagar pelas aulas. E Cláudio concordou, é claro, com essa mui sábia decisão da parte contratante. Nada se opondo a que o verbal contrato, em sua segunda versão, apresentasse uma nova cláusula. Referente a uma multa, em valor igual ao da aula, a ser aplicada sobre seus honorários cada vez que ele faltasse.
Agora, é saltarmos todos para a atualidade, pois é nela que vamos encontrar a conclusão dessa "melódia": Cláudio continua sendo o Baden Powell cearense, Nelson (que nunca mais viu Cláudio) sopra seu sax nas Gerais e eu, sem a tarimba do amigo professor, ainda bato meu violão. Como resultado das aulas recebidas e, mais do que isso, de toda uma boêmia convivência que tive com Cláudio. E esse violão, que eu ainda empunho, é o meu Prozac, aliás.

Publicado também no blog EntreMentes

Abaixo, o artista fotografado (arquivo Elda Gurgel) quando jovem, muito jovem, com o violão que àquela época possuía, no Sítio Catolé, em Senador Pompeu - CE, onde costumava passar suas férias.

ONDE ANDA MARCELO

Apresso-me a informar: em Málaga, Espanha. Nessa cidade do sul da Espanha (em que nasceram Picasso e Banderas) estão acontecendo, de 16 a 19 de junho, as XXIX JORNADAS DE ECONOMÍA DE LA SALUD. Conforme deixou anotado em seu blog, Marcelo participa das jornadas com duas comunicações orais e três pôsteres, trabalhos que resultaram de pesquisas feitas sob o patrocínio do Projeto Economia da Saúde, o qual tem a UECE como instituição acadêmica parceira.

OTÁVIO BONFIM NO GOOGLE MAPS


O bairro dentro dos limites que eu estabeleci para ele. Numa visão sentimental e não oficial. Aliás, nem o nome do bairro é oficialmente Otávio Bonfim (é Farias Brito).

"VELHO PALHAÇO"

Ao ler o Caderno 3 do Diário do Nordeste, edição do dia 22/01/07, eis que tive a notícia de um amigo dos velhos tempos. Dos anos 60, quando morávamos no bairro de Otávio Bonfim. É o Paulo Gomes (em foto atual, ao lado). Aproximados por nossos gostos com relação à música popular brasileira, nos encontrávamos muitas vezes para mostrar, um ao outro, as composições que fazíamos. Ele, tradicionalista, compunha sambas, marchas e frevos. Quanto a mim, carregando a mão nos acordes dissonantes, elaborava umas certas canções bossanovísticas. E sonhávamos em vencer festivais
Houve um festival da terra em que Paulo Gomes teve uma música classificada. O xará me convidou para que, ao lado do grande violonista Cláudio Costa, eu o acompanhasse na apresentação. Paulo Gomes, ele mesmo, não tocava qualquer instrumento musical. Compunha as suas músicas a ritmar com as mãos e a cantarolar. Na qualidade de discípulo do Cláudio Costa, eu já dedilhava na época um violão, mas com muito ainda a aprender. Por isso, durante a apresentação da sua música no festival, cuidei de não esquecer o principal detalhe. O de me posicionar, no palco, de uma forma que eu pudesse olhar o braço do violão do mestre. E o que ele fez lá, eu fiz cá.
Mas a reportagem do DN fala de um Paulo Gomes que ainda compõe. E que colocou uma marcha-rancho, de nome “Velho Palhaço”, em um festival de marchas carnavalescas no Rio de Janeiro. Já em situação de finalista, depois de concorrer com mais de mil canções, e com possibilidade de sair no Fantástico. Dependendo, é claro, de uma força que os conterrâneos possam dar ao “Velho Palhaço” através da internet.
Parabéns, velho amigo. Ouvi, gostei e já estou a votar.

Publicado no EntreMentes (Blog do PG) em 26/01/07.
Aqui transcrito, em 03/06/09, por ser assunto que pode interessar
aos leitores do blog Família Gurgel Carlos.

Post scriptum
A marcha-rancho "Velho Palhaço", do amigo Paulo Gomes, ficou entre as 10 finalistas do festival de marchas carnavalescas. Nesta condição, foi para o seletíssimo grupo das 3 finalistas, com direito à apresentação no programa Fantástico. Em 11/02/07, apresentadas as três músicas nesse programa da Globo, o resultado final foi o seguinte:
II Concurso Nacional de Marchinhas de Carnaval
(Promoção da Fundição Progresso / Apoio da Rede Globo)
1º lugar - “Prá Carmen” (de Bete Bissoli, interpretada por Soraya Ravenle) – marchinha campeã do concurso, compositora agraciada com o Troféu Chiquinha Gonzaga.
2º lugar - “Marcha da Descompostura” (de João Cavalcanti, interpretada pelo autor).
3º lugar - “Velho Palhaço” (de Paulo Gomes, interpretada por Pedro Paulo Malta).
O vídeo da apresentação do "Velho Palhaço" no Fantástico encontra-se atualmente fora de catálogo da Globo Vídeos. Pesquisando, porém, no YouTube (sempre ele!) encontro esse vídeo com a marcha-rancho de Paulo Gomes.