Dona Lindaura melhorou um pouco - acho que já namora os 101 - e, como se o mundo quisesse confirmar a notícia, existe cajuína em Belo Horizonte.
Minha Julia apareceu com uma garrafa (1) e um sorriso.
Para isto também fizeram as filhas.
A alegria só se turvou ao saber que não vinha do Ceará, berço de seu pretenso inventor. (2)
Desta vez, o Piauí atravessou o mapa e chegou primeiro. Espero que não copiem agora a cor verde do nosso mar.
Ainda faltam a bundinha do caju, mordido à sombra e o sapoti aberto na palma da mão com aquele caldo de tanino escorrendo pelo braço e pingando infância.
A alegria precisa vir em pedaços pequenos e esporádicos; caso contrário, deixa de ser reconhecida e se esvanece.
Quando vira costume, já não sabemos se chegou ou se sempre esteve ali, feito o ar que a gente inspira rico e devolve pobre.
Fomos feitos dessa matéria - para nos encantar com o raro; do contrário, a vida perderia o brilho.
Não pode mesmo haver cajuína em Minas, nem jabuticaba no Ceará.
Ficaríamos ambos indiferentes.
O que nos atinge é o que nos falta.
Essa é a tristeza da abundância:
Cajuína! (3)
Que seja rara.
Que seja pouca.
Que não seja daqui.
Desta vez, o Piauí atravessou o mapa e chegou primeiro. Espero que não copiem agora a cor verde do nosso mar.
Ainda faltam a bundinha do caju, mordido à sombra e o sapoti aberto na palma da mão com aquele caldo de tanino escorrendo pelo braço e pingando infância.
A alegria precisa vir em pedaços pequenos e esporádicos; caso contrário, deixa de ser reconhecida e se esvanece.
Quando vira costume, já não sabemos se chegou ou se sempre esteve ali, feito o ar que a gente inspira rico e devolve pobre.
Fomos feitos dessa matéria - para nos encantar com o raro; do contrário, a vida perderia o brilho.
Não pode mesmo haver cajuína em Minas, nem jabuticaba no Ceará.
Ficaríamos ambos indiferentes.
O que nos atinge é o que nos falta.
Essa é a tristeza da abundância:
Cajuína! (3)
Que seja rara.
Que seja pouca.
Que não seja daqui.
Nelson Cunha
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N. do E.
(1) O rótulo dessa cajuína não mente. Foi produzida pela "Lili Doces", empresa que se orgulha de ser a principal produtora de cajuína no Piauí.
(2) A cajuína tem suas raízes indígenas no cauim, uma beberagem historicamente preparada pelas mulheres das tribos para os rituais de passagem, guerras e celebrações em geral. Com a quebra do amido (da mandioca, milho ou batata-doce) em açúcares pela mastigação, dando início pela ação da ptialina um processo de fermentação alcoólica de teor variável. Ao farmacêutico Rodolpho Theophilo, cearense nascido na Bahia e do qual se dizia antipatizar o álcool, devemos: a utilização da maçã do caju como matéria-prima; a clarificação do suco do caju pela resina do próprio cajueiro; a filtragem e o engarrafamento; o longo tempo de cozimento em banho-maria para a caramelização e esterilização da cajuína; e, por fim, o seu primeiro registro.
(3) Segue um vídeo do acervo da ALECE TV, com direção geral de Ângela Gurgel, em que foram ouvidos dois depoentes de alto nível (o engenheiro químico Renato Casimiro e o jornalista e escritor Lira Neto) sobre a cajuína com clareza em Fortaleza.
Paulo Gurgel
