RAÍZES DE LUIZ: REDENÇÃO E ACARAPE

Paulo Gurgel Carlos da Silva
Os dois municípios, Redenção e Acarape, se conectam pela rodovia CE 060 como se um dos municípios fosse o prolongamento urbano do outro. Guardam as mesmas características do solo, fértil e propício ao cultivo da cana-de-açúcar, assim como os mesmos referenciais hídricos, que são as águas originárias do rio Pacoti, de seus afluentes e o represamento delas a jusante no açude Acarape do Meio.
Origem e formação de Redenção
Primitivamente, o nome Acarape designava a sede de Redenção. Suas origens remontam ao século XVIII, quando ali se instalaram os primeiros agricultores, beneficiários das vastas e fecundas terras da região.
Ainda pertencente à Vila de Baturité, Acarape (atual Redenção) passou a ter o seu distrito policial, cujo registro guarda como instrumento de apoio o Ato Provincial de 18 de março de 1842. Em 1868, Acarape foi desmembrada de Baturité e elevada à categoria de Vila. A elevação à categoria de Vila provém da Lei nº 1.255, de 28 de dezembro de 1868, com a instalação do Poder Municipal em 28 de agosto de 1871.
Pelo pioneirismo na libertação dos escravos no Estado do Ceará, foi outorgado a Acarape o nome de Redenção. A elevação à categoria de Município provém da Lei Provincial nº 2.167, de 17 de agosto de 1889, com o nome outorgado, memória rediviva da redenção do negro no Ceará.
Origem e formação de Acarape
O atual município de Acarape foi o antigo povoado de Calaboca (ou Cala Boca). Ainda modesto, o povoado de Calaboca quis então homenagear suas origens, e passou a chamar-se Acarape a partir de 1926.
Antes, porém, desse fraternal e justo acontecimento, a povoação de Calaboca recebeu do acaso a cota de benefício pelo qual foi responsável a Ferrovia Fortaleza-Baturité. Esse benefício constou da Estação Ferroviária, construída pela Companhia e inaugurada a 26 de outubro de 1879.
O povoado, então, despertou de sua longa apatia, e pequenos comerciantes se estabeleceram na localidade. Com isso, a população do povoado rapidamente cresceu. Ao chegar o momento oportuno, seus moradores se arregimentaram, requereram e obtiveram a elevação do povoado à categoria de Vila, tendo como instrumento de apoio a Lei nº 2.376, de 18 de setembro de 1926, ganhando, também, a mudança de nome para Acarape. Sua elevação à categoria de Município, já com a denominação atual, provém da Lei nº 11.308, de 16 de abril de 1987.
Com a desativação do trem de passageiros em 1988, a estação fechou. Por alguns anos, abrigou a Secretaria de Cultura de Acarape e atualmente o prédio da estação é a sede do Paço Municipal.
Foto: PGCS, em 8/11/2017
Luiz, o filho de Acarape
Em 1916, passada a Seca de 15, nossos avós paternos José e Valdevina deixaram Pereiro e fixaram residência em Acarape, à época fazendo parte do município de Redenção, onde José Carlos adquiriu uma propriedade rural conhecida por “Pau Branco”. Naquelas terras banhadas pelo Rio Pacoti, como era de vocação da região, José Carlos passou a investir no plantio da cana-de-açúcar, além de algumas culturas de subsistência.
O consórcio de José e Valdevina Carlos da Silva gerou sete filhos que “vingaram”. Nascido em 1918, Luiz Carlos foi o segundo dos filhos do casal, sendo o primeiro deles a nascer em Acarape.
Luiz fez o Curso Primário de 1927 (ao que tudo indica) a 1931 em uma escola municipal em Redenção, condição que o obrigava a percorrer, diariamente, mais de uma légua a pé ou, ocasionalmente, no lombo de um jumento, para superar a distância que separava o sítio Pau Branco do local de aprendizado.
A Seca de 32 produziu um rude golpe em sua carreira de estudante. Seu pai, que esperava usar parte dos recursos amealhados em 1931, para enviá-lo a Fortaleza, onde Luiz daria início a seu curso ginasial, viu-se impossibilitado de fazê-lo, porque a prioridade, agora, era lutar pela manutenção de toda a família.
Na vigência da seca e nos dois anos seguintes, Luiz teve de continuar no meio rural, enfrentando o duro labor de arar e semear a terra, sob o sol escaldante, além de moer a cana e cuidar dos animais de criação para ajudar a prover o sustento da família.
Finalmente, em 1935, após aprovação em exame admissional, ingressou no Colégio Cearense do Sagrado Coração.
Luiz, o filho adotivo de Fortaleza
Concluído o curso de Direito, Luiz jamais esqueceu sua terra natal. Como advogado, ia semanalmente a Acarape e Redenção onde prestava assistência jurídica a uma numerosa clientela. Nos períodos eleitorais, era nestes municípios que ele obtinha uma parcela significativa dos votos como candidato a deputado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e, depois, pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). Por muito tempo, o getulista Luiz foi a principal liderança local do PTB.
Além disso, havia o sítio Pau Branco. Administrado pelo irmão caçula Valter, que continuou a morar em Acarape, era com ele que Luiz trocava frequentes ideias sobre os rumos na condução da propriedade. Houve ainda um período em que ele se dedicou ao comércio de aguardente. Luiz comprava em Acarape tonéis desta bebida para engarrafá-la em Fortaleza, sob os nomes de “Esportiva” e “Uiscana”.
Cronologia
1842 - Criação de um distrito policial em Acarape, Baturité.
1868 - Acarape é desmembrada de Baturité e elevada à categoria de Vila.
1879 - É construída uma estação de trem da Ferrovia Fortaleza-Baturité em Calaboca, povoado da Vila de Acarape.
1889 - Acarape, com o nome de Redenção, é elevada à categoria de Município. 1915 - Seca do 15 no Ceará
1916 - José e Valdevina fixam residência em Calaboca.
1918 - Nasce Luiz Carlos da Silva.
1919 - Ano de seca no Ceará
1926 - Calaboca passou a se chamar Acarape, em honra às origens.
1932 - Ano de seca no Ceará
1935 - A família Carlos da Silva passa a morar em Fortaleza e Luiz ingressa no Colégio Cearense.
1987 - Acarape passa a ser Município.
São considerados como anos de seca, aqueles em que o desvio anual normalizado pela média, em todo o Estado do Ceará (Figura 1), apresentou um valor inferior ou igual a –40%. Segundo este valor os anos foram (1915, 1919, 1932, 1958, 1983, 1993 e 1998).
Referências
ACARAPE. Site: www.ceara.com.br. Disponível em: http://www.ceara.com.br/m/acarape/index.htm. Acesso em: 25/11/2017.
ACARAPE. Site: pt.wikipedia.org. Disponível em: . Acesso em: 25/11/2017.
ALVES, J.M.B. et al. Principais secas ocorridas neste século no Estado do Ceará: uma avaliação pluviométrica. Disponível em: http://www.cbmet.com/cbm-files/13-1380726e80520f5fb2161d562051b1ad.pdf. Acesso em:25/11/2017.
ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS DO BRASIL. Site: www.estacoesferroviarias.com.br. Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br/ce_crato/acarape.htm. Acesso em: 25/11/2017.
REDENÇÃO. Site: www.ceara.com.br. Disponível em: http://www.ceara.com.br/m/redencao/index.htm. Acesso em: 25/11/2017.
REDENÇÃO. Site:pt.wikipedia.org. Disponível em: . Acesso em: 25/11/2017.
SILVA, G.G.C. da. Avós paternos. In: SILVA, M.G.C. da; ADEODATO, M.G.C. Dos canaviais aos tribunais: a vida de Luiz Carlos da Silva. Fortaleza: Edições UECE/ Expressão, 2008. p.19-22.
SILVA, M.G.C. da. A formação educacional de Luiz Carlos da Silva. In: SILVA, M.G.C. da; ADEODATO, M.G.C. Dos canaviais aos tribunais: a vida de Luiz Carlos da Silva. Fortaleza: Edições UECE/ Expressão, 2008. p.63-70.
SILVA, M.G.C. da. Refazendo o caminho: passado e presente de uma família. Fortaleza: Edição do autor, 2012. 144p.
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SILVA, P.G.C. da. O Tigre da Abolição. Site: Linha do Tempo. Disponível em: http://gurgel-carlos.blogspot.com/2017/11/o-tigre-da-abolicao.html. Acesso em: 29/11/2017.
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JB Serra e Gurgel fez publicar este artigo no jornal "Ceará em Brasília", edição 314, de agosto de 2018. Obrigado, conterrâneo.

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