O Estado do Ceará tem um histórico de secas recorrentes e severas, sendo a "Grande Seca" de 1877-1879 o maior desastre natural já registrado no país em número de vítimas.
Abaixo, os principais períodos de seca que mais assolaram o Estado, incluindo os anos mais recentes.
1877 - 1879. A mais devastadora da história do Brasil. Causou entre 400 mil e 500 mil mortes em todo o Nordeste, sendo o Ceará a província mais afetada. A seca durou três anos e ficou conhecida como "Grande Seca" ou "Seca dos Mil Dias". (1)
1915. Conhecida como a "Seca de 1915", imortalizada no romance "O Quinze", de Rachel de Queiroz. Foi responsável por dezenas de milhares de mortes e resultou na criação do primeiro campo de concentração para flagelados, o "Campo do Alagadiço", com o objetivo de isolar os retirantes que fugiam da seca, impedindo-os de perambular por Fortaleza. (2)
1932. Marcada pela construção de sete campos de concentração no interior do Estado para conter os retirantes (Buriti, no Crato; Cariús, em Jucás; Quixeramobim; Ipu; Otávio Bonfim, conhecido como "Campo do Matadouro", em Fortaleza; Urubu, no bairro do Pirambu; e Patu, em Senador Pompeu). Estima-se que, durante esta seca, mais de 70 mil pessoas foram confinadas em condições insalubres, resultando em milhares de mortes por fome e doenças. No cenário de agruras do Campo do Patu, o escritor cearense Rafael Caneca integrou o personagem Tomás Alves, em seu romance de estreia, "Não Volte Sem Ele". (3)
1979 - 1983. Um longo período de estiagem que secou grandes açudes e levou a uma severa crise hídrica, impulsionando a criação das primeiras políticas estaduais de recursos hídricos no Ceará.
2012 - 2016. Considerada a pior seca dos últimos 100 anos do ponto de vista hidrológico, superando em severidade a de 1979 -1983. Teve médias de chuva historicamente baixas e levou os reservatórios do Estado a níveis críticos.
Contexto e curiosidades históricas:
(1) A Grande Seca de 1877 - 1879 foi um evento tão extremo que alterou drasticamente a demografia do Estado do Ceará. A seca coincidiu com um surto de varíola, agravando ainda mais a mortalidade. Estima-se que o Ceará tenha perdido cerca de um terço de sua população na época, entre mortos e retirantes que fugiram para outras regiões como a Amazônia.
(2) Durante as secas de 1915 e 1932, o poder público implantou uma política de "isolamento" dos retirantes para evitar que chegassem a Fortaleza. Esses locais, apelidados de "Currais do Governo", confinavam famílias inteiras em áreas afastadas, onde a fome e as doenças se alastravam rapidamente.
(3) A memória das vítimas da seca de 1932 ainda é preservada pela população. Em Senador Pompeu, município que abrigou um dos maiores campos de concentração, é realizada anualmente a "Caminhada da Seca", um evento religioso em que os fiéis homenageiam os mortos sepultados no Cemitério da Barragem do Patu. Em 27/11/2023, atendendo às demandas da sociedade civil, o Governador Elmano de Freitas assinou o decreto de tombamento defitivo do Sítio Histórico do Patu. Este local é o único, dos sete espaços desta natureza instalados no Ceará, que ainda permanece com as ruínas de pé. Ao que tudo indica, por ter sido feito de sólida alvenaria na década de 1920 (Vila dos Ingleses), em contraste com os demais campos de concentração apressadamente construídos de taipa e palha.

Nenhum comentário:
Postar um comentário