Seu texto (UM PRESENTE DE NATAL) me inspirou a fazer uma homenagem a todos os cavaletes do mundo (melhor seria chamá-los como os ianques - bridge). Segue o meu texto.
Nelson Cunha
Peça inerte que suporta sobre os ombros o peso tenso das cordas. É o carteiro injustiçado: entrega as notas ao bojo que acolhe, alimenta e as devolve ao vento. Os olhos da plateia buscam as mãos que ferem o aço - o malabarismo, o ritmo, a coreografia vistosa dos dedos. Os aplausos pertencem à destreza que se exibe.Enquanto isso, o cavalete (bridge), humilde e anônimo, permanece imóvel, cravado no tampo como um osso discreto. Não cria o som, torna-o possível. Recebe as vibrações e as conduz adiante, fiel e necessário como uma ponte, que liga o pouco ao muito. Sustenta a tensão, traduz o golpe em ressonância e faz chegar a mensagem às entranhas do instrumento. Nunca se apropria do que conduz. Resiste, estoico, à tentação de reter para si algum brilho, alguma nota, algum quinhão de glória. Sem ele, a música sepulta-se no fosso do silêncio.
Lá está ele:o risco essencial que ninguém nota. Dorme sem o eco dos aplausos. Sonha, talvez, em ser corda e vibrar, mas amanhece traço - firme, mudo e soberano naquilo que entrega, enquanto o som que ajudou a nascer já voa longe.
Nelson,
O cavalete do violão (do bandolim, do violino e de outros instrumentos musicais de corda) é feito principalmente de madeiras nobres e densas, como jacarandá, pau-ferro, caviúna e ébano, escolhidas por sua dureza e ressonância para transmitir as vibrações das cordas. Materiais como o osso e material sintético também são usados para o rastilho (a peça onde as cordas se apoiam) e a madeira do cavalete pode ser reaproveitada das sobras de outros instrumentos, sendo moldada com precisão e colada com adesivos específicos para marcenaria.Já tive um violão cujo cavalete tinha o péssimo costume de desprender-se do tampo. Por duas vezes, levei o a um "luthier" (estas aspas são necessárias) para recolocar o cavalete no devido lugar. Inutilmente, pois o cavalete tornava a se soltar. Foi quando eu tive uma ideia (de jerico), a de sugerir que ele reforçasse as propriedades adesivas da cola com a inclusão de dois parafusos. Aí morreu a voz do violão.
Paulo Gurgel
A publicar: A FUGA DO CAVALETE
Um comentário:
Paulo,
Teu comentário me despertou uma ideia que acabou virando um pequeno conto. Achei justo te enviar antes de qualquer outra coisa, já que a faísca veio de ti.
Abraço,
Nelson
A Fuga do Cavalete
O cavalete incomodava-se com o silêncio.
Preso ao tampo de um violão esquecido no fundo de um armário do escritório, escutava apenas o pó assentando, o ranger distante da casa e o tempo passando sem música. Até que, certa tarde, vindo de alguma sala próxima, ouviu um som majestoso: outro violão tocava. Reconheceu de imediato -era uma valsa vienense, cheia de giros, salas amplas e aplausos imaginados.
A inveja veio primeiro. Depois, a fúria.
Tomado por esse duplo impulso, o cavalete decidiu libertar-se das cordas que o sujeitavam ao tampo. Já não suportava sustentar um silêncio que não era escolha, mas abandono.
O tampo, por sua vez, também se ressentia da longa inatividade. Suas fibras ressecadas, seu lenho esquecido, tudo nele clamava por vibração. Como se compartilhasse o mesmo descontentamento, reuniu forças que julgava perdidas. Num esforço inaudito, moveu-se. Estufou o peito de madeira com coragem nunca antes exigida e, num estalo seco, libertou-se do pobre cavalete.
-Vai, meu cavalete - disse o tampo, numa voz que só os objetos conhecem. - Segue o teu caminho. És feito de madeira nobre. Algum luthier há de te encontrar e usar-te, quem sabe, num Stradivarius. Conhecerás o mundo, as grandes plateias, os mais belos teatros.
O cavalete hesitou. Nunca imaginara existir fora dali.
-Eu não posso ir - continuou o tampo. - Muitas peças ainda me prendem. Parafusos, trastes, hábito. Mas tu, não. Vai. E não demores.
Houve uma pausa breve, carregada de tudo o que não se diz entre coisas condenadas a durar.
-Porque o dono deste violão pode se lembrar dele - completou o tampo - e voltar. E, se isso acontecer, morrerás comigo, novamente aparafusado .
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