A FUGA DO CAVALETE

Paulo,
Teu comentário me despertou uma ideia que acabou virando um pequeno conto. Achei justo te enviar antes de qualquer outra coisa, já que a faísca veio de ti.
Abraço,

Nelson

A Fuga do Cavalete 
O cavalete incomodava-se com o silêncio.
Preso ao tampo de um violão esquecido no fundo de um armário do escritório, escutava apenas o pó assentando, o ranger distante da casa e o tempo passando sem música. Até que, certa tarde, vindo de alguma sala próxima, ouviu um som majestoso: outro violão tocava. Reconheceu de imediato -era uma valsa vienense, cheia de giros, salas amplas e aplausos imaginados.
A inveja veio primeiro. Depois, a fúria.
Tomado por esse duplo impulso, o cavalete decidiu libertar-se das cordas que o sujeitavam ao tampo. Já não suportava sustentar um silêncio que não era escolha, mas abandono.
O tampo, por sua vez, também se ressentia da longa inatividade. Suas fibras ressecadas, seu lenho esquecido, tudo nele clamava por vibração. Como se compartilhasse o mesmo descontentamento, reuniu forças que julgava perdidas. Num esforço inaudito, moveu-se. Estufou o peito de madeira com coragem nunca antes exigida e, num estalo seco, libertou-se do pobre cavalete.
-Vai, meu cavalete - disse o tampo, numa voz que só os objetos conhecem. Segue o teu caminho. És feito de madeira nobre. Algum luthier há de te encontrar e usar-te, quem sabe, num Stradivarius. Conhecerás o mundo, as grandes plateias, os mais belos teatros.
O cavalete hesitou. Nunca imaginara existir fora dali.
-Eu não posso ir - continuou o tampo. - Muitas peças ainda me prendem. Parafusos, trastes, hábito. Mas tu, não. Vai. E não demores.
Houve uma pausa breve, carregada de tudo o que não se diz entre coisas condenadas a durar.
-Porque o dono deste violão pode se lembrar dele - completou o tampo - e voltar. E, se isso acontecer, morrerás comigo, novamente aparafusado.
Nelson José Cunha

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