O CARTEIRO INJUSTIÇADO

Paulo,
Seu texto (UM PRESENTE DE NATAL) me inspirou a fazer uma homenagem a todos os cavaletes do mundo (melhor seria chamá-los como os ianques - bridge). Segue o meu texto:
Peça inerte que suporta sobre os ombros o peso tenso das cordas. É o carteiro injustiçado: entrega as notas ao bojo que acolhe, alimenta e as devolve ao vento. Os olhos da plateia buscam as mãos que ferem o aço - o malabarismo, o ritmo, a coreografia vistosa dos dedos. Os aplausos pertencem à destreza que se exibe.
Enquanto isso, o cavalete (bridge), humilde e anônimo, permanece imóvel, cravado no tampo como um osso discreto. Não cria o som, torna-o possível. Recebe as vibrações e as conduz adiante, fiel e necessário como uma ponte, que liga o pouco ao muito. Sustenta a tensão, traduz o golpe em ressonância e faz chegar a mensagem às entranhas do instrumento. Nunca se apropria do que conduz. Resiste, estoico, à tentação de reter para si algum brilho, alguma nota, algum quinhão de glória. Sem ele, a música sepulta-se no fosso do silêncio.
Lá está ele:o risco essencial que ninguém nota. Dorme sem o eco dos aplausos. Sonha, talvez, em ser corda e vibrar, mas amanhece traço - firme, mudo e soberano naquilo que entrega, enquanto o som que ajudou a nascer já voa longe.

Nelson,
O cavalete do violão (do bandolim etc) é feito principalmente de madeiras nobres e densas, como jacarandá, pau-ferro, caviúna e ébano, escolhidas por sua dureza e ressonância para transmitir as vibrações das cordas. Materiais como o osso e material sintético também são usados para o rastilho (a peça onde as cordas se apoiam) e a madeira pode ser reaproveitada de sobras de outros instrumentos, sendo moldada com precisão e colada com adesivos específicos para marcenaria.
Já tive um violão cujo cavalete tinha o péssimo costume de soltar-se do tampo. Por duas vezes, levei o a um "luthier" para recolocar o cavalete no devido lugar. Inutilmente, pois o cavalete tornava a se soltar. Foi quando eu tive a ideia (de jerico) de sugerir que ele reforçasse a cola com a inclusão de dois parafusos. Aí morreu a voz do violão.

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