CHIQUITA GURGEL

Foi uma figura emblemática da sociedade fortalezense, conhecida por seu papel como socialite, mecenas e anfitriã de eventos culturais e beneficentes em Fortaleza ao longo do século XX. Nascida Maria Francisca Gurgel do Amaral, ela pertencia a uma família tradicional do Ceará e se destacou por seu charme, elegância e envolvimento em causas sociais e artísticas.
Coluna “Pela Sociedade” de Lúcio Brasileiro, jornal “Gazeta de Notícias”. Foto da grande anfitriã Chiquita Gurgel, com Samia Pinheiro e a primeira dama do Estado Marieta Cals. 29 set. 1971.

Destaques de sua atuação:
1. Vida Social e Cultural:
Era uma das grandes damas da alta sociedade de Fortaleza, frequentando e promovendo saraus, exposições e festas que reuniam artistas, intelectuais e políticos. Tinha forte ligação com o meio artístico, apoiando nomes da música, literatura e artes plásticas cearenses. Em seu tempo, era muito citada pelo colunista Lúcio Brasileiro:
"Que eu conheça, único salão havido da sociedade cearense foi o da Chiquita Gurgel, na Rua (sic) Desembargador Moreira, entendendo-se como tal a senhora que mantém as portas sempre abertas para receber inclusive jornalistas, padres e intelectuais."
Em sua estreia na televisão (na pioneira TV Ceará, Canal 2), Lúcio Brasileiro decidiu submeter a grande socialite Chiquita Gurgel a seu famoso "questionário proustiano". Atordoada pelo calor forte dos refletores antigos, somado ao efeito de calmantes e doses de scotch, a anfitriã acabou desmaiando ao vivo. O episódio virou lenda na crônica da cidade.
2. Benemerência:
Engajou-se em obras assistenciais e filantrópicas, ajudando instituições de caridade e eventos beneficentes. Participava ativamente de campanhas sociais, especialmente as ligadas à Igreja Católica e a entidades como a Legião da Boa Vontade (LBV).
3. Família e Legado:
Era casada com Eduardo, que figurava de forma discreta nas recepções que Chiquita oferecia.Seu nome ainda é lembrado como símbolo de uma época de glamour em Fortaleza.
Encontro na dissertação de Iratuã Freitas Silva, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará em 2022, com o título de "A elite cearense: sob a óptica do colunista social Lúcio Brasileiro", a seguinte passagem:
"A leitura de "Aldeota" (obra de Jáder de Carvalho, 1963) nos remete a uma história verídica, ocorrida na casa da senhora Chiquita Gurgel. Ela realizava diariamente em sua residência, no chique e ainda novo bairro. De acordo com Lopes (José Augusto Lopes, in "Colunistas e colunáveis, 1997), a senhora Gurgel foi a maior anfitriã do Ceará em todos os tempos, tanto pela quantidade de encontros, como pela qualidade dos eventos, todos voltados para rodas de música, saraus de poesia e apresentações teatrais.
A hostess convidava para essas reuniões pessoas de setores diversificados de nossa sociedade, tais como intelectuais, jornalistas, escritores, padres, estudantes, empresários, formando um mix de visitantes, com personalidades e perfis que contrastavam uns com os outros. Em um desses encontros estavam sendo recepcionados na casa de Chiquita os atores Walmor Chagas e Cacilda Becker, que se apresentavam em Fortaleza com peça teatral. No transcorrer do evento, Chiquita Gurgel resolveu declamar uma poesia com marcas bem dramáticas; quando a dama finalizou a apresentação, o empresário conhecido à época como “rei da cera”, começou a bater palmas efusivamente, proferindo algumas frases laudatórias, entre elas “eita poesia pai-d’égua”. Ouviu-se, então, o burburinho de risadas.
O fato narrado serve para fazer uma referência de como nossa sociedade foi formada. O senhor em questão, natural da cidade de Sobral, descendia de uma família com tradição no beneficiamento da cera de carnaúba, que fez fortuna com esse produto. Ele migrou para Fortaleza, onde instalou uma fábrica na Avenida Francisco Sá . De fato, o sobralense havia obtido êxito e sucesso no campo da economia, mas no campo da cultura, da arte, da etiqueta era um neófito."
Em seu “Dicionário do Lustosa”, entre suas lembranças e indiscrições confessadas, o jornalista Lustosa da Costa “dicionarizou” o seguinte fato:
“Uma vez, Lúcio Brasileiro e eu visitávamos Chiquita Gurgel. À certa altura, pedimos-lhe música. Ela indagou se desejávamos ouvir Bach, Brahms, Mozart... Homem do Beco da Piedade, fui franco: ‘Não tem disco de Nelson Gonçalves, de Altemar Dutra, ou de Alcides Gerardi?’ Insegura, ela ainda nos perguntou, tímida: ‘Vocês gostam?’ Eu gostava, ela gostava, nos gostávamos. Só não nos arriscávamos ao patrulhamento estético. Era o medo de parecer cafona.”

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