O POMBO CHEIO

Posso dizer, com conhecimento de causa, que, na década de 1960, bares e restaurantes não existiam em Otávio Bonfim. O bairro tinha, quando muito, algumas mercearias como a do Seu Edmundo e a do Seu Júlio, onde bebedores contumazes encostavam-se nos balcões para dar suas bicadas.
(É possível que tenham apreciado a "Uiscana" e a "Esportiva", marcas de aguardentes engarrafadas por Luiz Carlos da Silva, pai deste escriba.)
Havia também a Cantina Glória, na Juvenal Galeno (atual Bezerra de Menezes), para aqueles que estavam a fim de forrar o estômago com uma abacatada, uma bananada ou uma canja acompanhada por fatias de pão.
Em seu quilômetro quadrado de área, Otávio Bonfim era desprovido de bares e restaurantes. E os boêmios, em suas ânsias etílicas, tinham de recorrer aos bairros vizinhos.
A partir de 1966, com o "passe livre" concedido pela Faculdade de Medicina, eu passei a frequentar os bares. Dois deles, especialmente: o Pombo Cheio, no Parque Araxá, e o Real Drinks, em Monte Castelo.
O Pombo Cheio ficava a um quarteirão da Jovita Feitosa, logo após o cruzamento desta artéria com os trilhos da RFFSA. Era um ponto de esquina, com mesas e cadeiras ao ar livre e com frondosas castanholeiras. Bem, o nome em questão servia para lembrar o tira-gosto (único) da casa: o pombo recheado com farofa e miúdos. Más línguas diziam que os pombos, quando escassos, eram substituído por pintos crescidos.
O seu proprietário era uma boa praça, o Zé Maria.
A caminho, eu passava na casa do violonista Cláudio Costa para convencê-lo a ir comigo ao Pombo Cheio. Não requeria um grande esforço. E logo estávamos no bar, em uma roda de amigos, a nos deliciar com os solos, harmonias e improvisos de um violão.
Outros músicos da região também apareciam por lá. Tio Edmar, certa vez, encantou-se com um trio musical, de passagem pelo bar. Um deles se chamava Fred, e cantavam à perfeição o "Help", dos Beatles, e uma música do Carlos Gonzaga, meio tolinha, que falava em "Ô Iraci, ai como eu amo a ti...". Apresentou-nos depois e, sob a aclamação geral, foram convocados para uma de nossas serenatas.
Sim, era de lá que partíamos para as serenatas com a programação anotada em papel. Ou, então, para o segundo tempo de boemia no Real Drinks, que ficava aberto até o dia amanhecer.
Em 6 de junho de 1969, botei umas cervejas para gelar e encomendei umas bandejas de salgadinhos. Reuni em casa Francisco Dário, Osternes Brandão, Claudio Costa e o compositor Belchior, entre outros. Por volta da meia-noite, encerramos a parte doméstica  da noitada e fomos ao Pombo Cheio, onde nos encontraríamos com o Miguel da Flauta em seu retorno de um compromisso profissional.
Naquela data, eu estava completando 21 anos. Uma fita-cassete registrou aquelas maravilhosas canções que foram tocadas e cantadas durante o encontro. Uma delas, por exemplo, era sua canção "Paralelas", que inicialmente Belchior cantava assim: "No Karmann-Ghia, sobre o trevo a cem por horas, meu amor". Adiante, foi modificada para: "Dentro do carro..."
Sabe o que aconteceu com essa fita-cassete da festa dos meus 21 anos? O meu irmão Marcelo usou-a para gravar umas aulas na Faculdade de Medicina. Como se sabe, duas gravações não ocupam o mesmo lugar no espaço. Et pour cause...
Alguns anos depois, Zé Maria mudou o seu Pombo Cheio para a Parquelândia. Em seu novo endereço comercial só fui visitá-lo uma vez.
PGCS
Corrigenda
Caro Paulo,
Quanto ao crime de lesa-pátria musical, no que concerne à minha ativa autoria, comporta correção e atenuante.
Em 1969, eu estava no primeiro ano científico no Colégio Júlia Jorge, e não na Faculdade de Medicina, sendo o que gravei foi a leitura que fiz a partir das cuidadosas anotações de uma aula de biologia do Prof. Hildemar, registradas no caderno da nossa irmã Marta.
O gravador em tela não admitia fita cassete, tendo fita única, e, como tal, qualquer gravação implicava apagar a existente, sobreposta pela nova.
Marcelo Gurgel

Um comentário:

Marcelo Gurgel disse...

Caro Paulo,
Boa tarde!
Quanto ao crime de lesa-pátria musical, no que concerne à minha ativa autoria, comporta correção e atenuante.
Em 1969, eu estava no primeiro ano científico no Colégio Júlia Jorge, e não na Faculdade de Medicina, sendo o que gravei foi a leitura que fiz a partir das cuidadosas anotações de uma aula de biologia do Prof. Hildemar, registradas no caderno da nossa irmã Marta.
O gravador em tela não admitia fita cassete, tendo fita única, e, como tal, qualquer gravação implicava apagar a existente, sobreposta pela nova.
Marcelo Gurgel