OS CASTIGOS CORPORAIS NA ESCOLA ANTIGA

O Decreto Imperial de 15 de outubro de 1827 foi o documento que criou o ensino público no país. Em seus 17 artigos, o imperador Dom Pedro I (1798-1834) mandou "criar escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império".
O artigo quarto definia que o método adotado era o "ensino mútuo", também chamado de Lancaster. Criado pelo pedagogo e quaker inglês Joseph Lancaster (1778-1838), destacava-se por otimizar a transmissão do conhecimento, ao conseguir passar as aulas a um grande número de alunos, com poucos recursos, em pouco tempo, e com relativa qualidade.
De acordo com o decreto, em seu artigo sexto, os professores "ensinarão a ler, escrever, as quatro operações de aritmética, a prática de quebrados, decimais e proporções, as noções mais gerais de geometria prática, a gramática da língua nacional, e os princípios de moral cristã e da doutrina da religião católica apostólica romana" - na época, o Estado ainda não era laico, vale ressaltar.
O mesmo artigo também trazia esta recomendação: "preferindo para as leituras a Constituição do Império e a História do Brasil".
Já a didática era baseada em repetição e memorização. E muita disciplina. E isto incluía as reprimendas, conforme dizia o artigo décimo-quinto da lei imperial: "os castigos serão praticados pelo método de Lancaster".
Em texto publicado em 15 de outubro de 1927, na "Revista do Ensino", edição comemorativa ao primeiro centenário da legislação, o professor Leopoldo Pereira descreve como era a "escola antiga", ou seja, o ensino do século 19.
"Não se compreendia então a escola sem o castigo corporal: a férula (palmatória) era para o mestre como o cetro para o rei ou o cajado para o pastor. Até nas aulas de latim e francês, que nossas principais cidades possuíram durante muitos anos, corria bem aceito o axioma que o latim, quando não entrava pelos olhos e ouvidos, devia entrar pelas unhas. Na escola primária a palmatória chamava-se santa luzia. Por que esse nome? Como se sabe, a crença popular venera Santa Luzia como advogada da vista, e nossos pais entendiam que a férula é que devia dar vista aos cegos", escreveu ele.
A palmatória, como se sabe, é um artefato geralmente de madeira formado por um círculo e uma haste. Foi muito utilizada no passado nas escolas pelos professores a fim de castigar alunos, golpeando-a na palma da mão do aluno castigado. Algumas palmatórias podiam conter furos no círculo, a fim de aumentar a sensação dolorosa. Os furos serviam para vencer a resistência do ar e aumentar a velocidade do golpe, aumentando assim a dor e vestígio deixado na pele por cada golpe.
Atualmente, seu uso é considerado crime na maioria dos países ocidentais, entre eles Portugal e Brasil (onde foi transformada em crime no final dos anos 70), bem como qualquer castigo físico infligido a estudantes.
O último país ocidental a abolir o uso da palmatória foi a Inglaterra, em 1989. Recentemente, contudo, o parlamento inglês voltou a debater a legitimidade do uso dos castigos físicos como medida educacional corretiva em crianças, gerando grandes discussões.
Antigamente, nas festas de formatura no Brasil, foi costume os alunos presentearem seus professores com palmatórias, como sinal de submissão à autoridade.
Fontes
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45837273
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-38398-15-outubro-1827-566692-publicacaooriginal-90222-pl.html
https://en.wikipedia.org/wiki/Joseph_Lancaster

A RODILHA

Do espanhol: rodilla.
Para aqueles que nasceram no século XX, não será difícil lembrar o que é uma rodilha (ou "sogra", como também é conhecida em Portugal). É uma pequena almofada em forma circular, aberta no centro, ou um simples pano enroscado em que assentam os objetos que se levam à cabeça. Por exemplo: caixas, latas, bacias, tabuleiros e potes.
"Quem não pode com o pote não pega na rodilha." 
Então, como pensam vocês que surgiu este provérbio?
Da forma como se faz a rodilha depende a sua eficácia. Uma rodilha mal feita se deslaça e se a lavadeira não for muito ladina deixa cair a bacia com roupas ao chão. Ao mesmo tempo que ajuda a equilibrar, a rodilha torna mais suportável o peso do recipiente sobre a cabeça.
Antigamente, as rodilhas mais elaboradas eram feitas de trapos e linhas de bordar, entrançadas e bordadas. Com o passar dos anos, este pequeno objeto deixou de ter uma tarefa funcional, e passou a ser utilizado como peça decorativa.
Isilda Duarte, costureira "há 39 anos", decidiu elevar o patamar, e encontra-se a produzir uma "rodilha gigante", que a pode levar a entrar para o desejado Livro Guinness dos Recordes.
Com dois metros de diâmetro, e 6,3 metros de perímetro, esta rodilha foi projetada em 2012. Naquela altura, "atravessava uma fase complicada na minha vida, e estava a lutar contra uma doença, precisava de alguma coisa que me distraísse e que me desse alguma motivação", revela a costureira ao site Pombal Jornal. Fez e desfez o molde "pelo menos seis vezes".
Nas primeiras "quatro vezes não acertava com o tecido que suporta a estrutura: algumas ficavam tortas, outros tecidos não lhe davam a consistência necessária, e ficava toda deformada". Depois de encontrar o material mais adequado, ainda teve que "refazer tudo mais duas vezes, porque não ficava mesmo redonda".
Quando ultrapassou esta etapa, começou a idealizar os "desenhos" decorativos, em papel quadriculado, e à escala, posteriormente foi a vez de escolher as cores e os tecidos que lhe vão dar alegria, num entrelaçado entre fitas coloridas e pretas, num design "pouco habitual". No total são mais de 200 metros de tiras pretas, e 80 de fitas coloridas, cada uma com cerca de 5 centímetros de largura.
Aqui estamos também a torcer pelo reconhecimento do recorde de Isilda por parte do Guinness.
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Nelson Cunha, médico oftalmologista em João Monlevade (MG), enviou esta mensagem:
"Rodilla" em espanhol é joelho. Refere-se de modo especial a seu disco ósseo, a patela. Também pode ser pano de chão que, ao ser torcido para expulsar água, transforma-se no "donut" de pano ou rodilha.
Acho que nosso idioma pescou a palavra além-fronteiras e mudou seu sentido: trapo de chão torcido que serve de suporte para cargas sobre a cabeça.
Conchita (nascida na Espanha e esposa de Nelson) não se lembra do nome da coisa em espanhol.

CACHAÇAS "UISCANA" E "ESPORTIVA"

Tio Edmar me enviou uma cópia do Contrato de Sociedade por Cotas de Responsabilidade Limitada que ele, Edmar Gurgel Coêlho, celebrou com meu pai, Luiz Carlos da Silva, por ocasião da criação de uma  sociedade, com sede em Fortaleza (à rua Justiniano de Serpa, 53, em Otávio Bonfim).
Com o capital social de Cr$ 200.000,00 (duzentos mil cruzeiros), integralizado no ato de assinatura do contrato, em 21 de julho de 1960, essa sociedade tinha como finalidade o comércio de bebidas, especialmente o engarrafamento e a distribuição de aguardente por atacado.
Em notas anteriores de "Linha do Tempo", [1] [2] [3] me reportei a essa atividade comercial de papai. Não durou muito tempo, tendo sido desfeita a sociedade quando Edmar passou a trabalhar no Banco do Brasil, na agência de Senador Pompeu, enquanto Luiz prosseguiu em suas funções de advogado e professor, das quais não havia sequer se afastado.
Meu pai, que jamais tomou qualquer bebida alcoólica, costumava justificar a natureza do empreendimento com a citação da passagem do Novo Testamento em que Jesus transformou a água em vinho na aldeia de Caná.
Trazida de Acarape/Redenção, antes de ser engarrafada a cachaça ficava algum tempo em tonéis, no depósito da Justiniano de Serpa, sendo odorizada com alfazema. E seu envasamento era concluído com a colocação das tampinhas (com a ajuda de uma maquininha) e dos rótulos da aguardente: "Uiscana" e "Esportiva". Rótulos bem simples, impressos numa gráfica de Fortaleza dispensados da arte da policromia.
Bibliografia/webgrafia
[1] Quanto ao imóvel alugado da Justiniano de Serpa, não foi logo devolvido à proprietária. Por algum tempo, Luiz, que era abstêmio, o utilizou como depósito de um negócio com aguardente. Lembro que adquiria o produto a granel de destilarias em Acarape, aonde costumava viajar por outro motivo, o de atender a sua clientela jurídica. Em Fortaleza, era a aguardente engarrafada e, com os nomes de "Uiscana" e "Esportiva", comercializada nos bares e mercearias desta cidade. Alguma vez, até acompanhei Tio Edmar, que era sócio dele no empreendimento, em suas peripécias de vendedor de destilados.
SILVA, P.G.C. da. Moradas e vizinhos. In: SILVA, M.G.C. da; ADEODATO, M.G.C. Dos canaviais aos tribunais: a vida de Luiz Carlos da Silva. Fortaleza: Edições UECE/Expressão, 2008. p.39-41.
https://gurgel-carlos.blogspot.com/2007/10/moradas-e-vizinhos.html
[2] Posso dizer, com conhecimento de causa, que, na década de 1960, bares e restaurantes não existiam em Otávio Bonfim. O bairro tinha, quando muito, algumas mercearias como a do Seu Edmundo e a do Seu Júlio, onde bebedores contumazes encostavam-se nos balcões para dar suas bicadas.
(É possível que tenham apreciado a "Uiscana" e a "Esportiva", marcas de aguardentes engarrafadas por Luiz Carlos da Silva, pai deste escriba.)
https://gurgel-carlos.blogspot.com/2013/06/o-pombo-cheio.html
[3] Houve ainda um período em que ele se dedicou ao comércio de aguardente. Luiz comprava em Acarape tonéis desta bebida para engarrafá-la em Fortaleza, sob os nomes de "Esportiva" e "Uiscana".
SILVA, P.G.C. da. RAÍZES: Redenção e Acarape. In: SILVA, M.G.C. da; SILVA, P.G.C. da (orgs.). Luiz, mais Luiz! Centenário de Nascimento de Luiz Carlos da Silva. Fortaleza: Edição do Autor, 2018. p.15-19.
https://gurgel-carlos.blogspot.com/2018/02/raizes-de-luiz-redencao-e-acarape.html