CHIQUINHA GONZAGA, PRIMEIRA MAESTRINA DO BRASIL

A grande artista Chiquinha Gonzaga nasceu Francisca Edwiges Neves Gonzaga, em 17 de outubro de 1847, no Rio de Janeiro. Era octaneta do capitão Toussaint Gurgel e de Domingas de Arão do Amaral e bisneta de Anna Joaquina Gurgel do Amaral. Seu pai, José Basileu Neves Gonzaga, era militar, um marechal de campo do Exército Imperial Brasileiro e sua mãe, Rosa Maria Gurgel, era filha de uma escrava alforriada. Contrariando a família, José Basileu casou-se com Rosa Maria Gurgel após o nascimento da filha Francisca.
Foi educada dentro de padrões muito rígidos por parte da família paterna, para cumprir os ofícios do lar e ser uma dama da sociedade carioca. E estudou piano com o maestro Elias Álvares Lobo.
Desde cedo, ela começou a contrariar a família do lado paterno, ao frequentar as rodas de lundu, umbigada e outros ritmos oriundos da África. Aos 11 anos, compôs ao piano a sua primeira melodia, intitulada "Canção dos Pastores", feita especialmente para a noite de Natal de 1858 em família.
Chiquinha Gonzaga não foi apenas uma pianista e maestrina, mas também uma inspirada compositora e boêmia das noites cariocas. Ela é considerada uma das maiores influências da música popular brasileira e foi a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil.
Sua vida ficou marcada pelo sucesso na música, mesmo tendo que enfrentar preconceitos por ser mulher, e teve participação destacada na luta pela causa abolicionista.
Também lutou pela causa republicana, defendendo o fim da monarquia no país. Ela chamava a atenção nas rodas boêmias do Rio de Janeiro por ser independente e por fumar em público, algo que não era considerado de bom-tom para as mulheres da sociedade daquela época.
Após casamentos e separações, a partir de 1877, ela passou a fazer da música uma profissão, sendo a primeira mulher a assumir essa condição, ainda inédita para a figura feminina no Brasil.
Sua primeira composição de sucesso foi "Atraente", no ano de 1877. Em seguida, vieram outras composições, tais como: "Sultana", de 1878, e "Camila", de 1879.
Em 1885, lançou-se no teatro de variedades e revista, ao compor a trilha sonora da opereta "A Cor na Roça". No ano seguinte, compôs o choro "Sabiá na Mata" e montou um concerto para 100 violões no Teatro São Pedro.
A sua consagração como musicista e compositora chegou em 1899, quando compôs a marcha "Ô Abre Alas", fazendo alusão ao cordão da Rosa de Ouro, uma agremiação carnavalesca do Andaraí, o bairro onde Chiquinha Gonzaga morava.
Ô abre alas, que eu quero passar
Ô abre alas, que eu quero passar
Eu sou da Lira, não posso negar
Rosa de Ouro é que vai ganhar.
Esta marcha entrou para a história da música brasileira, como a primeira composição criada especificamente para o carnaval.
Outra música de Chiquinha Gonzaga que ficou muito conhecida é "Casa de Caboclo", que relata o grande amor de um caboclo por Sinhá Rita, que acaba em tragédia.
Numa casa de caboclo
Um é pouco
Dois é bom
Três é demais!
Todavia, o grande sucesso de Chiquinha Gonzaga até hoje é sem dúvida a modinha "Lua Branca", que também figura entre as mais conhecidas dentro do grande acervo musical da artista.
Ela partiu, me abandonou assim,
Ó lua branca, por quem és, tem dor de mim.
Por volta de 1900, Chiquinha Gonzaga conheceu Nair de Teffé, um artista irreverente como ela, que era pintora, cantora, atriz e pianista. Embora fosse brasileira de nascimento (em Petrópolis - RJ), Nair de Teffé foi criada e educada em Paris, na França. Talvez por compartilharem ideias avançadas para a época aqui no Brasil e por possuírem visões do mundo semelhantes, logo se tornaram grandes amigas.
Em 1911, Chiquinha Gonzaga estreou a opereta "Forrobodó", com um estrondoso sucesso, chegando a fazer 1.500 apresentações seguidas, tornando uma recordista deste gênero no Brasil.
Sua amiga, Nair de Teffé, casou-se em 1913 com o então presidente da República Hermes Rodrigues da Fonseca, que ficara viúvo logo início de seu mandato. E, durante esse período de primeira-dama, Nair, que era amante da música popular, promovia saraus no Palácio do Catete com a participação do violonista Catulo da Paixão Cearense. Esses saraus se tornaram famosos por introduzir o violão, considerado um instrumento menos nobre, nas festas palacianas.
Sendo muito amiga da primeira-dama, Chiquinha Gonzaga era convidada de honra dos saraus. Num desses, Nair de Teffé resolveu organizar um recital de lançamento de uma música composta por sua amiga Chiquinha Gonzaga. Era um maxixe intitulado "Corta-Jaca", cuja letra começava assim:
Neste mundo de misérias
Quem impera
É quem é mais folgazão,
É quem sabe cortar jaca.
Essa apresentação de Chiquinha Gonzaga no Palácio do Catete teve uma repercussão extremamente negativa nos meios políticos e nas elites sociais da Capital Federal. Em grande parte, motivada pelo preconceito devido à reputação que ela tinha por sua coleção de escândalos. A repercussão desse evento foi tanta, nos meios políticos da oposição, que originou um pronunciamento do então senador da República, Rui Barbosa, do qual uma parte é transcrita a seguir:
Mas, o "Corta-Jaca" de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba.

Hermes da Fonseca foi sucedido por Venceslau Brás e, em seguida, viajou para a França com sua esposa, Nair de Teffé, onde permaneceram por seis anos em Paris, perdendo contato com Chiquinha Gonzaga.
A artista eu seguimento a sua carreira de sucesso, compondo várias músicas, entre elas a da opereta "Juriti", de Viriato Corrêa. Em 1934, já com 87 anos, a maestrina Chiquinha Gonzaga escreveu sua última composição intitulada "Maria". Ela faleceu em fevereiro de 1935, no Rio de Janeiro, sendo o seu corpo sepultado no cemitério do Catumbi. Chiquinha Gonzaga compôs, ao todo, 2.000 músicas, incluindo trilhas sonoras para 77 peças teatrais.
Em 2012, foi criada a Lei 12.624, que institui a data de nascimento de Chiquinha Gonzaga, 17 de outubro, a ser comemorada como o Dia da Música Popular Brasileira.

Extraída de: Primeira Maestrina do Brasil (321 - 340), in: FERNANDES, José Veríssimo. Os Amaral Gurgel. Fragmentos da história de uma família ao longo dos séculos. Natal: Sebo Vermelho, 2022. 599 p. ISBN 978-65-89712-16-9
Webgrafia
https://blogdopg.blogspot.com/2023/10/a-noite-do-corta-jaca.html
https://blogdopg.blogspot.com/2017/10/homenagem-chiquinha-gonzaga-1847-1935.html (c/ vídeo)
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12624.htm

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