CENTENÁRIO DR. CARLOS ALBERTO STUDART GOMES (2)

Discurso de Dr. Gilmário Mourão Teixeira (foto) pronunciado no Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes, em 22/09/2017. Transcrito do Blog MEMÓRIAS de Dra. Ana Margarida Arruda Furtado Rosemberg.
--- Ao agradecer a homenagem que, generosamente, me é prestada, nesta festa de exaltação à memória de Carlos Alberto Studart Gomes, realce de seu centenário de nascimento, deixem-me que converta a minha condição de homenageado na de testemunha presencial da história, pois, contemporâneo – acerco-me dos 100 anos – e companheiro de lutas, vivemos juntos, Carlos Alberto e eu, muitas das refregas que nos desafiavam como chefes de serviços de saúde, não raramente posicionados em campos opostos, mas, sem um arranhão, sequer, nas fraternas relações que cultivamos.
Feliz a ideia de realizar este encontro de saudosa evocação, neste espaço que abrigou não só o campo de suas lutas vitoriosas, mas, também as vivências da essência da vida, pois aqui, neste mesmo rincão, Carlos Alberto viveu, por anos, ao lado da sólida e bela família que constituiu, indubitavelmente, o ente maior de sua escala de valores.
Reconheçamos o quanto é sábio aquele que dedica a vida profissional à grandeza de uma instituição, notadamente uma entidade cujo escopo é o alívio da carga de sofrimento humano que a doença determina, forma transcendental de concorrer para o restabelecimento do bem estar, ente essencial à qualidade de vida e condicionante de um dos propósitos maiores das aspirações humanas - o estado de saúde. E este desiderato Carlos Alberto cumpriu por vocação.
Quando os avanços da ciência e da tecnologia, colocaram nas mãos dos que promovem a saúde, os agentes específicos que curavam a tuberculose, prescindindo, na maioria dos casos, do acolhimento hospitalar, discutimos, por vezes neste mesmo ambiente, o destino que estaria reservado às instituições que dirigíamos, Carlos Alberto aqui, à frente do então Sanatório de Messejana e eu ali adiante, à cabeça do, à época, Sanatório de Maracanaú.
Frente às vertentes que despontavam da perspectiva de novos caminhos, o reverenciado desta tarde, homem de ampla visão, acurado auscultador do labirinto da saga das políticas de saúde, vislumbrou e combateu, arduamente, a transformação daquele modesto sanatório – a joia da coroa - criado nos anos trinta graças aos ideais do Dr. João Otávio Lobo, neste hospital agora denominado “Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes” que, sem negligenciar a tuberculose, pois cuida, atualmente, dos casos que exigem tecnologia fina, fez-se uma unidade avançada de doenças cardiovasculares e torácicas e é, hoje, um acreditado centro de referência nacional em transplantes cardiopulmonares.
Nosso homenageado é parte de uma constelação de médicos que contraíram a tuberculose quando ainda cursando a Faculdade de Medicina – condição que Carlos Alberto jamais ocultou – e, curados, dedicaram-se à especialidade voltada para a prevenção, o tratamento e o controle dessa doença, uma das calamidades que mais vítimas fez, através da história da humanidade e, nos dias atuais, dominada pelas conquistas da medicina, mas, ainda não erradicada devido aos agravos do subdesenvolvimento e à inépcia dos que doutrinam e conduzem a saúde do povo.
Não seria demasiado admitir que algo do caráter de visionário, de defensor inarredável de suas causas e de romântico, qualidades que integravam a personalidade de Carlos Alberto, tenham origem no misticismo que, então, envolvia o drama dos que padeceram de tuberculose.
José Rosemberg, um dos expoentes de nossa cultura médica, em trabalho magistral, levantou aspectos da vida de 364 tuberculosos célebres – reis, rainhas, escritores, cientistas, médicos, pintores, músicos – que viveram em épocas em que a tuberculose dizimava não só os estratos sociais que abarcam a miséria, mas também as elites, figuras que, ainda no dizer de Rosemberg, amalgamaram a tuberculose à história cultural das manifestações criativas e à dramaticidade da doença.
Não foi só por acaso, que Thomas Mann, a maior expressão da literatura alemã da era contemporânea, tenha concebido sua obra prima, a “Montanha Mágica”, enquanto paciente de um Sanatório dos Alpes suíços – o Sanatório Berghof em Davos, hoje, Waldhotel-Bellevue – numa atitude romântica, o visitei em 1998; nesse ambiente plural, Thomas Mann, também um dos mais lúcidos humanistas de seu tempo, encontra inspiração para moldar seus múltiplos personagens que, no dizer de um de seus apreciadores, arrastavam ao debate, as correntes vigentes do pensamento filosófico que envolviam o materialismo científico, o racionalismo, o iluminismo, a democracia, para alcançar os grandes temas da Fé, da Morte, da Ciência, da Filosofia, do Amor e do Tempo.
Permitam-me agora, ao encerrar este sucinto elogio, com que reverenciamos a memória de um cidadão íntegro, um médico empreendedor, que aplicou todo seu conhecimento das ciências médicas e saberes advindos da experiência de vida, na prática do bem e no desenvolvimento de entidades dedicados à recuperação da saúde, permitam-me, renovo, por apropriado, fazer um chamamento à consciência de cada um de nós, considerando a crise moral e política que ora nos desonra como nação e frente aos deveres da cidadania, para que, democraticamente, quando as urnas nos forem apresentadas, entreguemos a compatriotas dignos, e somente a eles, a condução das instituições que nos asseguram a governabilidade, a lei, a justiça, a ordem, o progresso e, acima de tudo, a liberdade e a paz.
Que a memória de Carlos Alberto nos ajude.
Dr. Gilmário Mourão Teixeira
médico pneumologista e professor aposentado da FMUFC
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